Navegação - Regata Alcatrazes por Boreste.


O sol despontava indicando um belo dia quando iniciamos os procedimentos para seguir rumo a raia, nosso querido Ciao, um belo MJ 38 era nossa máquina de guerra na classe RGS Cruiser onde outras grandes embarcações de cruzeiro também estariam, dentre todas elas o famoso e majestoso Atrevida de 95 pés construído por volta de 1923, uma verdadeira obra de arte naval.
Como cruzeiristas, procuramos utilizar todas as técnicas, táticas e estratégias para navegarmos com certa vantagem sobre nossos concorrentes, que contavam com barcos de cruzeiro rápidos e com tripulações bastante experientes em circuitos oceânicos.
A movimentação estava intensa, a raia cheia de classes diferentes e com mais de 100 barcos que variavam de 20 a quase 100 pés, os nervos à flor da pele, pois com o vento muito fraco as decisões de mudança de estratégia eram tomadas a cada segundo, todos calados e sempre atentos aos movimentos das outras embarcações, atentos também às informações da comissão de regatas e com o proeiro nos enviando informações através de sinais, fazendo com que toda a tripulação se movimentasse a todo momento, substituindo velas, alterando as regulagens e distribuição de peso no barco.
Agora, todas as tripulações com todos os cronômetros a mão e prontas para ativar o regressivo do tiro de sua classe, mantinha o clima de tensão no ar.
O aviso é dado pelo canal do VHF, momento de silêncio que precede o tiro, ninguém quer perder o tiro, tampouco os olhares e gestos sutis dos barcos concorrentes que naquele momento poderia alterar toda nossa estratégia de largada, limitada aos seus poucos centímetros que nos distancia das embarcações a barla e a sotavento.
O cronometro segue, em tom baixo vamos passando todas as coordenadas para o timoneiro, quanto tempo falta, quem está a barla, quem está a sota, onde temos condição de buscar uma boa rajada para aquela condição, onde concorrentes da classe ou não estão encontrando alguma rajada melhor, enfim...
5,4,3,2,1 e a corneta soa indicando que nossa regata iniciava, com vento fraco, um volume grande de embarcações e muita vontade de alcançar o nosso objetivo, Alcatrazes por boreste.
Ainda durante a 1ª hora os barcos navegavam com vento muito fraco fazendo com que não conseguíssemos desfazer aquele bloco de barcos de cruzeiro.
As classes one design como HPE 25, C30 e S40 logo se desvincularam do grupo aproveitando suas configurações de cascos leves e grandes áreas vélicas. Aos poucos nossa flotilha foi se dissipando e cada barco pode iniciar sua navegação de acordo com a estratégia definida.
Foram muitas horas navegando até alcançarmos alguma vantagem, cada cambada ou cada jaibe nos colocava numa dúvida, pois o vento além de fraco também rondava muito e mesmo com nossa experiência, nossas certezas em muitos momentos eram incertas.
Até deixarmos a ponta sul da Ilhabela nossa navegada foi de muita técnica, o que deixou toda a tripulação num nível de estresse muito grande, afinal tínhamos que manobrar um barco com aproximadamente 6.000 kg com ventos de 6 a 8 nós e isso era um exercício de técnica e paciência que depois de 7 horas debaixo de sol intenso, acabou nos esgotando fisicamente. Mas nossa missão ainda levaria aproximadamente mais 7 horas até alcançarmos nosso objetivo, contornar alcatrazes por boreste.
Finalmente deixamos o extremo sul da ilha e já tínhamos o visual de alcatrazes, tínhamos também o visual de uma porção de outras embarcações que, assim como nós, estavam paradas por falta de vento.
Mas nem tudo estava perdido, segundo a previsão o início da noite nos traria vento que duraria a noite toda, variando entre 15 e 20 nós. Como eu ainda me recuperava de uma forte febre, aquele sol todo havia me esgotado, então fui o 1º a descer para um descanso, quando acordei estava encostado na parede da cabine e pensei, opa isso significa que o barco está orçando, maravilha!
Vesti rapidamente minha roupa de tempo, me apoiando com o pé praticante na porta da geladeira dado o ângulo do casco, o vento estava forte e isso era tudo o que queríamos, pois com ventos fortes poderíamos explorar o melhor do nosso barco.
Subi e a tripulação estava na escora, outros em seus postos, contornávamos alcatrazes e naquele momento nosso visual era bastante limitado, navegávamos com auxilio de instrumentos e apesar de conhecermos bem a região, as decisões sempre eram tomadas considerando a segurança da tripulação, riscos não faziam parte dos planos.
Contornamos alcatrazes por boreste e logo estávamos apontando Ilhabela onde já contávamos com visual por conta da ilha e dos navios que aguardavam para entrar no canal.
Mais algumas horas e cruzaríamos a linha de chegada, nosso barco que navega muito bem sob condições pesadas de vento, nesse momento gozava de uma boa linha de navegação o que nos animava a cada momento, às 03:48:39 am fomos o 2º barco a cruzar a linha de chegada localizada ao sul da ilha após aproximadamente 18hrs e 60 milhas percorridas, o que nos rendeu o 3º lugar no tempo corrigido.
Uma navegada com muita emoção, teste de paciência e principalmente resistência física.
Bons Ventos.